9 de maio de 2026
Este texto é reflexão de orientação psicanalítica e não substitui acompanhamento psicológico ou médico. Se você estiver em risco ou em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo, o SAMU 192 ou o CVV 188 (gratuito, 24 horas).
Muita gente usa a palavra “ansiedade” para falar de coisas diferentes. Às vezes é a pressa que não passa. Às vezes é a cabeça que não desliga à noite. Às vezes é a sensação de estar sempre um passo atrás do que deveria.
Este texto não fala da ansiedade como quadro clínico. Fala do que ela costuma ocupar: as relações, o trabalho e o jeito de se cobrar.
Um cuidado antes: se a ansiedade vem com sintomas fortes no corpo, como coração disparado, falta de ar ou noites seguidas sem dormir, procure um médico. Isso precisa ser olhado por quem cuida da saúde.
Nos vínculos, a ansiedade costuma aparecer como espera. Espera de uma resposta, de um sinal, de uma confirmação de que está tudo bem. Uma mensagem que demora pode virar uma história inteira, quase sempre com final ruim.
Não é exagero, nem drama. É um modo de estar na relação em que perder parece sempre possível, e em que é preciso vigiar para não ser pego de surpresa. Cansa quem vive, e muitas vezes cansa também quem está do outro lado.
No trabalho, ela aparece como a sensação de que é preciso provar o próprio valor o tempo todo. Um erro pequeno ganha peso. Dizer não parece perigoso. A lista de pendências nunca termina, e descansar vira mais um item que não foi cumprido.
Uma parte disso tem a ver com o modo como o trabalho está organizado: metas, ritmo, clima. Outra parte tem a ver com a história de cada um, com o lugar que se aprendeu a ocupar diante de quem cobra. As duas coisas costumam vir misturadas.
Talvez o lugar mais difícil seja o de dentro. A comparação constante, a exigência de não errar, a impressão de que nada do que se faz é suficiente.
Quando essa cobrança ocupa muito espaço, fica difícil saber o que se sente, o que se quer e onde estão os próprios limites. A pessoa sabe muito bem o que esperam dela, e quase nada sobre o que ela mesma espera.
Muita gente já sabe tudo isso sobre si. Já leu, já nomeou, consegue explicar de onde vem. E a ansiedade continua.
Saber o nome do que acontece é uma coisa. Descobrir para que aquilo serve, e desde quando, é outra. Na psicanálise, o que se repete não é tratado como defeito a ser eliminado. É tratado como algo que tem uma história, mesmo quando ela não está à vista.
A escuta psicanalítica não oferece técnica para “controlar a ansiedade”. O que ela oferece é tempo e lugar para falar sem precisar chegar a uma conclusão, e para escutar o que volta na própria fala.
Às vezes, o que aparece é uma cobrança que tem outra voz por trás. Às vezes, é um medo mais antigo do que a situação de agora. Isso não acontece de uma vez, e não tem prazo. Mas, quando o que se repete ganha palavra, a pessoa passa a ter mais escolha sobre o que faz com isso.
Sentir ansiedade faz parte da vida. A pergunta não é como nunca mais sentir, e sim o que ela ocupa, e o que fica de fora por causa dela.
Se essa pergunta faz sentido para você, ela merece ser falada.
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Este texto é reflexão de orientação psicanalítica e não substitui acompanhamento psicológico ou médico. Se você estiver em risco ou em emergência, procure o pronto-socorro mais próximo, o SAMU 192 ou o CVV 188 (gratuito, 24 horas).
Gisele Batista, psicanalista. Base freudiana, em leitura integrativa. Não é psicóloga.